Memórias dos Alunos
Sumário
Treinamentos no Dōjō dos Irmãos Kurachi
A primeira academia oficial de Karatê no Brasil, segundo relatos de um dos alunos que treinou com Harada Sensei, ficava localizada na Quintino Bocaiúva, número 255, no primeiro andar — em uma sobreloja dividida em três espaços.
Esse dōjō era originalmente dos irmãos Kurachi, conhecidos por serem excelentes praticantes de judô e pessoas amáveis e amigas. Os treinos de judô deles aconteciam às segundas, quartas e sextas-feiras, enquanto os treinos de Karatê Shōtōkan de Harada Sensei eram às terças, quintas e sábados.
Nota sobre os irmãos Kurachi
O nome Kurachi mencionado na memória dos alunos refere-se a uma família japonesa tradicionalmente ligada à prática do judô no Brasil, especialmente na região da Liberdade, em São Paulo.
Os irmãos Kurachi eram reconhecidos judocas que mantinham um dōjō na rua Quintino Bocaiúva, 255, local mencionado como o espaço original onde também ocorreram treinos de Karatê Shōtōkan sob a orientação de Harada Sensei.
Essa informação está em consonância com relatos históricos e memórias orais de praticantes da época, reforçando a importância da convivência e intercâmbio entre judô e karatê na formação das artes marciais no Brasil.
O distintivo do dōjō, usado no kimono (ou *kimono*, dependendo da grafia), no lado esquerdo do peito, trazia o símbolo do “vazio” — conceito do budismo que representa o “cheio”. Esse símbolo foi introduzido por Harada Sensei, que havia sido aluno direto de Funakoshi Gichin na Universidade de Waseda, em Tóquio.
Naquela época, o sistema de graduação era diferente do atual. Por exemplo, a “faixa branca com mão” indicava um nível inicial que hoje equivaleria aproximadamente à faixa vermelha. Depois vinham a faixa azul (próxima às faixas roxa e marrom atuais) e, por fim, a faixa preta.
Essas memórias reforçam a importância histórica da primeira academia legalmente reconhecida no Brasil, fundada por Harada Sensei com o apoio do presidente Eduardo, responsável pelos trâmites legais.
Contexto Histórico da Graduação e Identidade do Shōtōkai
Nos primeiros tempos do Karatê praticado no Brasil, ainda não se conhecia o Shōtōkai como estilo definido — nem mesmo Harada Sensei o identificava dessa forma. A prática era simplesmente chamada de Karatê.
A emissão da certificação de 5º Dan para Harada Sensei, pela primeira vez com o nome Shōtōkai e assinada por Funakoshi Sensei e Egami Sensei, marcou a legitimação da autoridade para a prática do Karatê no exterior, mas não a institucionalização do Shōtōkai.
Essa graduação serviu para afirmar autoridade e legitimar a prática do Karatê diretamente no exterior, separando-a das controvérsias internas do Japão, onde a disputa entre o Karatê tradicional e o esportivo gerava conflitos.
Dentro do Shōtōkai, a graduação máxima é o 5º Dan; não existe graduação superior oficial. Antes disso, os praticantes apenas conheciam o Karatê de forma geral, sem distinção do estilo Shōtōkai.
No Brasil, essa distinção ficou ainda mais confusa porque o primeiro dōjō fundado tinha o nome Shōtōkan, igual ao do Hombu Dōjō do Japão, e a parte esportiva do Karatê começou a ser associada ao Shōtōkan como estilo competitivo.
Entretanto, mestre Funakoshi nunca criou um estilo, apenas estabeleceu o Karatê-Do, uma arte marcial que deveria transcender estilos e disputas. Essa missão de desenvolvimento e aprimoramento do Karatê foi passada a Egami Sensei, que buscou alcançar o verdadeiro espírito do Karatê-Do, livre das influências esportivas.
Desafios e Dinâmicas da Prática e Ensinamento
Ao longo da trajetória do Karatê-Do, foram observados momentos de divergência e discussões sobre a evolução da prática e os métodos de ensino.
Um desses episódios envolveu Harada Sensei e Schneider Sensei. Após Schneider Sensei ter aprendido o kata Matsukaze no Japão e o ter ensinado a Harada Sensei a seu pedido, Harada Sensei expressou que “se você ensinou a um mestre, então você também é mestre.” Este evento marcou um ponto de ruptura na relação entre eles.
Posteriormente, entre as décadas de 1970 e 1980, Harada Sensei manifestou o desejo de que Okada Katuo o acompanhasse para a Europa, o que não foi possível para Okada. Este período foi marcado por intensas discussões. Harada Sensei também defendeu a necessidade de uma “nova prática”, chegando a sugerir que ensinamentos anteriores fossem descartados por estarem “errados”. As demonstrações técnicas, para as quais Okada Katuo era frequentemente o único escolhido, eram realizadas com grande severidade e na presença de outros professores, incluindo Mestre Shinzato e seu filho Masahiro, do Shōrin-Ryū. As divergências sobre as novas diretrizes da prática e a vida pessoal de Okada Katuo foram objeto de prolongadas discussões.
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